Ficha de leitura nº6
Unidade de ensino: Património Genético
Conteúdo/Assunto: Pela primeira vez, foi possível detectar e isolar, no fluxo sanguíneo, células susceptíveis de criar metástases e espalhar um cancro. Isto poderá permitir avaliar a agressividade dos cancros de forma precoce.
Nova técnica permite detectar células cancerosas a circular no sangue
Os "nano-clarões" iluminam as células cancerosas da mama (à esquerda), mas não as células saudáveis (à direita)
Uma equipa de cientistas nos Estados Unidos demonstrou que é
possível, graças a pequenos bocados específicos de ADN espetados à
superfície de diminutas bolinhas de ouro, detectar no sangue humano
células cancerosas que estão à deslocar-se à procura de novos sítios do
corpo para invadir. A inédita técnica, que poderá permitir destruir
estas células antes de elas se instalarem noutros órgãos e formarem
metástases, foi descrita recentemente na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS).
Quando um cancro forma metástases, o prognóstico
para o doente não é bom; já pode ser tarde demais. Ora, até aqui, não
era possível apanhar as células cancerosas circulantes directamente no
sangue, antes de elas colonizarem novos tecidos.
Agora, Chad
Mirkin, da Universidade Northwestern (EUA), e colegas, conseguiram
literalmente fazer brilhar essas células iluminando-as do interior por
uma salva de microscópicos very-light. Os cientistas deram à sua
invenção o nome de NanoFlares (nano-clarões) e mostraram, em várias
condições experimentais, que eles permitem não só detectar
individualmente as células cancerosas na circulação sanguínea, como
também isolá-las. E que, como não matam estas células, permitem ainda
cultivá-las no laboratório para testar a eficácia de diversos fármacos
anti-cancro.
“Tanto quanto sabemos, esta é a primeira abordagem
baseada na genética que permite ao mesmo tempo o isolamento e a análise
genética intracelular de células tumorais vivas em circulação”, escrevem os autores na PNAS.
A
bolinha de ouro que forma o núcleo dos NanoFlares, com apenas 13
nanómetros (milionésimo de milímetro) de diâmetro, está coberta por uma
camada de pequenas sequências de ADN (em hélice simples) capazes de
reconhecer e de se ligar a genes específicos das células cancerosas. Por
sua vez, essas sequências de ADN estão "acopladas" a bocadinhos de ADN
que contêm o clarão propriamente dito (uma molécula fluorescente).
Inicialmente,
a fluorescência do clarão é abafada pela proximidade do ouro, explicam
ainda os cientistas no seu artigo. Mas o que acontece é que os
NanoFlares penetram, não se sabe bem como, no interior das células. E se
vierem a dar com o material genético específico do cancro que são
capazes de reconhecer, ligam-se a ele, libertando o bocadinho que contém
o clarão. Ao afastar-se da bolinha de ouro central, o clarão vai assim
iluminar o interior da célula em causa, marcando-a como cancerosa.
“O
NanoFlare acende uma luz dentro das células cancerosas que procuramos”,
diz o co-autor Shad Thaxton em comunicado de Universidade Northwestern.
“E o facto de os NanoFlares serem eficazes na complexa matriz do sangue
humano constitui um enorme avanço técnico. Conseguimos encontrar
pequenos números de células cancerosas no sangue, o que é mesmo como
procurar uma agulha num palheiro.”
Tratamentos à medida?
Os cientistas construíram quatro tipos de NanoFlares, cada um dirigido contra um alvo genético conhecido por estar associado a cancros da mama agressivos (isto é, que formam facilmente metástases). Mais precisamente, os NanoFlares são dirigidos contra o “ARN mensageiro” (uma outra forma de material genético) que codifica certas proteínas que se sabe estarem associadas às células dos cancros agressivos da mama.
Os cientistas construíram quatro tipos de NanoFlares, cada um dirigido contra um alvo genético conhecido por estar associado a cancros da mama agressivos (isto é, que formam facilmente metástases). Mais precisamente, os NanoFlares são dirigidos contra o “ARN mensageiro” (uma outra forma de material genético) que codifica certas proteínas que se sabe estarem associadas às células dos cancros agressivos da mama.
E
a seguir mostraram, em particular, que esses NanoFlares eram capazes de
detectar as células cancerosas, com uma taxa de erro inferior a 1%,
quando estas eram misturadas com sangue de dadores humanos saudáveis.
Uma
vez identificadas as células, os cientistas conseguiram separá-las das
células normais e estudá-las em cultura. “Ao contrário de outras
técnicas de isolamento de células cancerosas, baseadas em anticorpos, a
exposição das células aos NanoFlares não resulta na morte celular”,
escrevem ainda. Ora, esta ausência de toxicidade poderá permitir estudar
células cancerosas vivas, avaliar o seu potencial metastático e
determinar qual a melhor combinação de fármacos para as eliminar. “Isto
poderia conduzir a terapias personalizadas, nas quais olhamos para a
forma como as células de um dado doente respondem a diversos cocktails terapêuticos”, diz por seu lado Chad Mirkin.
Os
autores testaram os nano-clarões, com resultados igualmente promissores
(embora com maiores taxas de falsos positivos), em ratinhos que são
utilizados como modelo experimental de cancro da mama humano. E neste
momento, explica ainda o comunicado, estão a tentar ver se a sua nova
técnica consegue detectar células cancerosas directamente no sangue de
doentes com cancro da mama.
Jéssica Valério,nº16,12ºC
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