Ficha de leitura nº7
Unidade de ensino: Imunidade e controlo de doenças
Conteúdo/Assunto: Sete anos depois de uma segunda espécie de bactéria da lepra ter sido isolada num doente mexicano, o seu genoma foi sequenciado. A Mycobacterium lepromatosis separou-se da bactéria mais comum da lepra há quase 14 milhões de anos.
Afinal, a lepra é causada por duas bactérias
Entre 2009 e 2012 houve 31 casos importados de lepra em Portugal
Para uma doença já famosa no tempo de Jesus Cristo, ainda há muitos aspectos desconhecidos sobre a lepra. Até há poucos anos, apenas se conhecia uma bactéria que originava esta doença, o bacilo Mycobacterium leprae. Mas em 2008 encontrou-se um outro bacilo num doente com lepra oriundo do México, o Mycobacterium lepromatosis. Uma equipa de cientistas sequenciou agora o genoma da nova espécie e comparou-o com o da antiga. Os resultados mostram que os dois bacilos são semelhantes, embora se tenham separado na árvore evolutiva há quase 14 milhões de anos, adianta um artigo na revista norte-americana Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS).
“Para nosso espanto, descobrimos que, estruturalmente, os dois genomas são muito semelhantes, apesar de terem divergido há muito tempo”, diz ao PÚBLICO Andrej Benjak, investigador da Escola Politécnica Federal de Lausana, na Suíça, e um dos autores do artigo publicado pela equipa liderada por Stewart Cole, que fez a sequenciação do genoma.
Esta informação sobre o genoma é importante. Quando se identifica uma bactéria nova associada a uma doença antiga, é necessário compreender se essa bactéria está, de facto, a originar a mesma doença ou uma doença semelhante. A descodificação do genoma – ao mostrar as características da bactéria, como o tipo de células humanas que é capaz de infectar – ajuda a desvendar esta questão.
No caso da lepra, tudo aponta para ambos os bacilos causarem a doença, explica Andrej Benjak: “As duas espécies não só são semelhantes em relação ao tamanho do genoma, como também têm os mesmos grupos de genes. Isto significa que, provavelmente, a biologia das duas espécies é muito semelhante.”
A lepra é uma doença infecciosa crónica e muito antiga. Terá surgido por volta de 2400 anos a.C., no Médio Oriente. O caso mais antigo de lepra que se conhece é o de um homem que viveu entre 1 e 50 anos d.C., cujo corpo foi encontrado nos arredores da cidade de Jerusalém. Análises ao ADN dos vestígios mostraram que o indivíduo tinha tido lepra. Ao longo dos séculos, a doença espalhou-se pelo mundo, estando associada à pobreza. Os leprosos, devido à sua aparência impressionante e por transmitirem uma doença então incurável, foram muitas vezes isolados e ostracizados.
Em 1873, Gerhard Armauer Hansen, um médico norueguês, identificou o agente patogénico que causa a lepra. A Mycobacterium leprae tornou-se então a primeira bactéria a ser associada a uma doença humana. E a lepra passou a ser também conhecida pela doença de Hansen, em referência ao médico.
Hoje, sabe-se que esta bactéria se multiplica muito lentamente e ataca os nervos periféricos, mais especificamente as células de Schwann. Estas células, que dão apoio ao sistema nervoso, envolvem as células nervosas com camadas de mielina, uma substância rica em gordura que permite a rápida propagação dos impulsos nervosos. Quando atacadas pelas bactérias, as células de Schwann morrem, o sistema nervoso começa a deixar de funcionar e os doentes começam a deixar de ter sensações em determinadas regiões da pele. E o resultado é uma neuropatia periférica. Um dos testes que ajuda a diagnosticar esta doença afere a sensibilidade das pessoas em zonas da pele onde surgem manchas. Mas além da pele, a doença afecta também as mucosas das vias respiratórias superiores e os olhos.
Depois de alguém ficar infectado pela bactéria, pode passar um grande período sem que a doença se manifeste. O período de incubação médio é cerca de cinco anos, mas os sintomas podem demorar 20 anos ou mais a surgir. Quando não é tratada, a doença causa danos permanentes na pele, nos nervos, nas mãos e nos pés e nos olhos, descaracterizando as pessoas, e destruindo os dedos. Os doentes acabam por ficar dependentes de terceiros para fazerem a sua vida diária.
Desde a década de 1960 que há vários antibióticos para tratar a doença. Em 1995, a Organização Mundial da Saúde (OMS) passou a distribuir de forma gratuita o tratamento à base de três antibióticos, o que permitiu reduzir muito a prevalência da lepra. Nos últimos 20 anos, 14 milhões de doentes com lepra foram curados. Em muitos países, a lepra foi erradicada – a OMS considera que um país deixa de ter lepra quando há menos de um caso por 10.000 habitantes. Em Portugal, entre 2009 e 2012 houve 31 casos importados de lepra, segundo o relatório Doenças de Declaração Obrigatória 2009-2012, da Direcção Geral da Saúde.
Ainda assim, todos os anos, há mais de 200.000 novos casos a nível mundial. E a doença é um problema em países como Angola, Brasil, República Democrática do Congo, Índia, Indonésia, Madagáscar, Moçambique, Nepal, Nigéria ou Sudão. Só a Índia teve mais de 127.000 novos doentes em 2011.
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